Fresno – Cemitério das Boas Intenções
02/01/2012
@pelogia

De volta ao mercado independente por opção própria [e não pela falta dela], a Fresno parece querer romper com seu lado radiofônico e com a imagem de banda emo [na visão midiática, de quem não conhece o assunto] em Cemitério das Boas Intenções, EP lançado em dezembro, de graça, na web.

Confiante de seu tamanho no mercado, a banda pesou na sonoridade e principalmente nas letras. Aos fãs das canções de amor sobre “eu-e-você” e aos que vêem a Fresno como um grupo que faz músicas para adolescentes, é um tapa na cara.

O álbum abre com Crocodilia. Instrumentos mais altos e uma letra que não precisa dar todas as palavras para dizer do que se trata [Não, não, não acredito em inferno / É só uma ilusão, o sofrimento é eterno/ Não, não, não acredito em saída/ É só uma ilusão, facilita a vida]. É a melhor das quatro canções do EP.

O peso e a descrença continuam em A Gente Morre Sozinho. A canção também deve causar um impacto aterrorizador aos fãs de todas as épocas do grupo, incluindo os mais antigos, da época independente, já que o tema da letra também vai de frente ao bom mocismo e as crenças religiosas de uma forma geral [Perguntaram para mim / Pra onde eu vou, de onde eu vim / E eu respondi com um olhar / Pedindo ajuda, sem encontrar].

A sonoridade é mais suave em Não Vou Mais e a canção parece ter um tom mais íntimo e pessoal, porém um recado direto chega nas últimas estrofes: “Eu já pedi pra Deus pra ele me salvar / Mas quando abro os olhos / Não acredito em nada”.

A última faixa é uma regravação acústica de Relato de Um Homem de Bom Coração, do álbum anterior, Revanche. A música destoa do clima das outras, mas já havia me chamado a atenção quando foi lançada. Ainda fico sem entender a crítica feita sobre “a vida na estrada” e a situação do artista popular. Afinal, não é o que a banda sempre desejou? Ou eu não entendi a letra?

É cedo para dizer como será a reação dos fãs, mas por pior que seja a resposta, a Fresno tem uma longa trajetória e uma longa base e um possível “tropeço” pode ser revertido, caso eles decidam não deixar a audiência pop.

Para concluir, deixo aqui uma resposta que o Lucas deu para mim há dois anos, durante o show de estréia do Beeshop, e que pode esclarecer um pouco sobre a mudança nos rumos do grupo e de sua carreira artística pessoal. Creio que a visão dele mudou apenas nos termos de “se a gravadora continua me apoiando”, mas a atitude musical é a mesma, o que me faz apostar que a Fresno não tem pretensões de voltar atrás em seu rumo.

À época, em dezembro de 2009, perguntei ao Lucas se ele pretendia ser o “Chris Cabarra do Brasil” [o fundador do Dashboard Confessional], já que o Beeshop fazia uma música muito parecida. O que ele me respondeu: “com certeza, quero ser sim. Queria ser até mais. Vamos falar de sonhar aqui, eu gostaria de ser o Jack White do Brasil. De ter a Fresno e tudo mais que eu tiver na cabeça. Eu gosto de música eletrônica séria, como LCD Sound System [atualmente, ele tem o SIRsir], então não duvido que daqui alguns anos eu tenha um projeto nessa linha também. Gosto de dar vazão a tudo que eu faço, e se a gravadora continuar me apoiando como agora, de até levar o Beeshop para a rádio, então pode dar muito certo”


One thought on “Fresno – Cemitério das Boas Intenções

  1. Vou dizer que pouco conhecia da banda, só o que tocava no rádio, mas no final de novembro assisti um show deles e saí de lá com essa impressão de terem colocado mais peso na música. Gostei. Já baixei esse EP e a pegada está bem interessante.

    Belo post, Pelogia.

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