O “SWU” de Buenos Aires: duas garrafas de plástico em troca de um lindo show de Fito Paez
04/12/2011
@pelogia

Festivais de música solidários acontecem com certa frequencia para todo lado, mas assistir um movimento deste aqui em Buenos Aires tem um clima diferente do que estou acostumado. Neste sábado (3) tive essa experiencia ao passar o final da tarde no Mundo Invisible, que reuniu cerca de 35 mil pessoas em um grande gramado no bairro de Belgrano.

O motivo que gerou o festival foi a preservação de bosques nativos em El Impenetrable, uma área que está dividida entre três estados do norte argentino. O “pagamento” para curtir o festival e ajudar no movimento eram duas garrafas plásticas. Como? Somente uma empresa nacional faz reclicagem de PETs por aqui e eles compraram cada garrafa por $0,15. Assim, convertido, cada dupla de garrafas rendeu um metro quadrado de bosque comprado e protegido. Rolaram várias outras ações socio-ambientais, porém essa foi a principal delas. Obviamente não é um SWU no quesito musical,  com um montão de atrações gringas, mas tem o clima de solidariedade e paz que é uma das coisas que penso [e não vejo] quando se trata do festival brasileiro.

Público curte domingo ensolarado no parque. Foto por Dalia Czeresnia

Garrafas foram entregues durante toda a semana no local. Foto por Dalia Czeresnia

O clima do público, além de render 140 mil garrafas, também é diferente do nosso (e com “nosso”, digo somente por São Paulo, já que sou um e sempre vivi em terras paulistas). Famílias, namorados, amigos, todo mundo em clima de piquinique no parque. Para todo lado, grupos de pessoas deitadas na grama, usando mochila como travesseiro e cheios de comida, almoçando no parque. Em três horas, vi somente cinco ambulantes no rolê, dois vendendo comida caseira. Em geral, todos levam e compartem a comida. Bonito, saudável e barato.

Cheguei com um grupo de brasileiros por volta das 18h, apenas para assistir o último show do evento, do Fito Paez. Se tivesse me dado conta do clima, teria ido mais cedo e imitado os portenhos todos ao invés de fazer comida e almoçar sozinho em casa.

Antes dele, pude ver o show do IKV (o nome inteiro é llya Kuryaki and The Valderramas), uma dupla de hip hop com toques de rock e que voltou a ativa há quatro meses, após 10 anos de hiato. Meu conhecimento do gênero está resumido a poucos nomes (a maioria, dos novos nomes bombados por ai), mas o som deles soa como Beastie Boys. Abaixo, o clipe de uma das músicas que eles tocaram no show (que foi transmitido para 350 mil pessoas no YouTube, mas não estão mais disponíveis):

Depois, de surpresa e improviso, o show do Vicentico. Por 17 anos, ele liderou uma banda chamada Los Fabulosos Cadillacs e desde 2001, está em carreira solo. Eu nunca tinha ouvido falar dele, mas eu apenas era uma triste exceção. Um coro imenso tomou conta do parque nas duas músicas que ele tocou com só, apenas com sua guitarra.

Atrás dele, o palco já estava pronto para o Fito Paez. Mas antes de falar do show, aproveito para me redimir de uma história que rolou há uns dois anos: em 2010, descobri um disco do Fito Paez na redação do Terra e quando tuitei que havia acabado de conhecê-lo, tomei algumas “broncas” nos replys. Ok, amigos, cumpri a minha parte. Essa foi a terceira vez que assisti a um show do Fito Paez.

Com meia hora de atraso e com o sol baixando [aqui ele vai embora às 8h da noite], começou o último show do festival. Não é preciso conhecer nenhuma música para entender a devoção que existe por ele aqui. Fito é uma figura marcante. Seus trejeitos no piano ou quando “rege” a plateia como um maestro prendem a atenção. Ele não tocou nenhuma música do último disco, Confiá [o que eu achei na redação], e mesmo assim achei sua apresentação ótima – olhando meu ponto de vista de fã, que não cantou quase nada.

Fito Paez fecha festival Mundo Invisible com grande show. Foto por Dalia Czeresnia

Prevista para durar 1h30, a apresentação durou duas horas. Sua habilidade de mudar de estilos entre uma música e outra é impressionante. Em um momento, empunhado de uma guitarra pesada; de repente ele retorna ao piano e deixa o “peso” para a banda; Na música seguinte, muda de novo e resolve correr e pular pelo palco, “regendo” seus instrumentistas. Se quiser conhecer alguma coisa sobre o rock argentino, sugiro o Fito como sua primeira opção para entender como eles fazem a coisa muito bem.

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