
Esta é a terceira e última parte do papo que tive com Rodrigo Lima em um boteco no bairro da Pompeia, em São Paulo. Pouca gente sabe, mas ele teve em planos se tornar um advogado, desistindo da profissão prestes a fazer o exame da OAB.
Hoje, além de vocalista do Dead Fish, ele aprendeu a arte de fazer cerveja e está se tornando um especialista no assunto [comparando-se a maioria nós, reles levantadores de copos].
Ele também falou de sua família, do selo Terceiro Mundo e a história da música Contra Todos, particularmente, a que mais diz sobre a minha vida caótica paulistana dos dias atuais.

Rodrigo Lima, 38: mestre cervejeiro, quase-advogado e vocalista do Dead Fish. Foto por Maikonn Batista
Você é formado Direito. Tem OAB?
No dia do exame da ordem, tinha show em algum lugar. Entrei na van e fui embora. Até fui uma vez na prova, mas não era formado. Tivemos um problema com a OAB do Espirito Santo e eles cortaram nosso direito de fazer a prova. Ai decidi: não vou mais fazer essa porra!
Trabalhei com o sindicato durante dois anos e para um advogado penalista, mas na época da faculdade. Quando me formei, entreguei o diploma para minha mãe e falei “tô indo para a estrada, tchau”. Isso foi em junho de 1999.
Você entregar o diploma e falar para a sua mãe que não trabalharia com direito. Como foi esse choque?
Não foi um choque, minha mãe já esperava um pouco. Ela tinha esperança de que eu mudasse de ideia, mas não aconteceu. Ela é artista plástica, mexe com decoração e arquitetura, gosta de arte. Apesar de eu achar que o que não faço arte, é vida cotidiana.
Foi quando vocês vieram para São Paulo?
Não, isso rolou muito tempo antes. Eu vivi da Terceiro Mundo, abrimos um escritório, era muito legal. Quem sabe um dia eu relance ele, mas não sei se vou ter saco. O selo era só eu, depois o Murilo entrou com uma grana, o Nô e o Alyand davam uma mão. Mas quem fundou foi eu.
Agora você é um cara que faz cerveja em casa, né?
Pois é, eu aprendi. Tanto que não consigo mais tomar muita cerveja. Eu nem bebo muito, mas tenho amigos que são cultuadores. Como é que você sabe que eu faço cerveja em casa?
Graças ao Pimentel. Ele disse para vir fazer uma matéria contigo.
Eu ainda tenho que melhorar. Mas é melhor do que estas cervejas aqui. É pura, não tem arroz fermentado no meio, nem água ruim. Fiz uma red ale, uma lager [com fermentação a frio] e agora quero fazer uma cerveja preta.
Tomei uma Erdinger preta uns dias atrás.
Você precisa experimentar uma imperial stout. Você vai sentir a dor de existir. É muito foda. Essa é uma das coisas que eu gostaria de seguir na minha vida, ter um canto para fazer e vender cerveja artesanal.
Será que dá mais dinheiro que banda?
Cara, eu sou um idiota [risos], gosto de tudo o que não dá grana. Fabricar cerveja, escrever, ter uma banda de punk rock. Eu poderia ser um desses advogados bigodudos. Estaria gordo e rico!
Esse caos de São Paulo. Eu moro na Rua Augusta, minha janela dá para o minhocão e todos que moram comigo não suportam o barulho a madrugada toda. Até hoje, quando eu ouço Contra Todos, funciona como um gás para sair de casa e enfrentar tudo mais uma vez. É o sangue de São Paulo.
Esse disco foi feito ali na sua vizinhança. Eu morava no térreo. Um dia tinha um mendigo morto, estatelado na frente da minha casa. Minha mulher falou “não quero mais viver aqui”. Escrevi da janela da minha casa, depois que recolheram o mendigo. As pessoas pulavam por ele, porque estavam com pressa. Eu acho animal a música, tenho muito orgulho de ter escrito. Mas nos shows, não falo sobre isso. Falo sobre futebol, que é uma música sobre as torcidas. É todo mundo na arquibancada, são as pessoas que empurram o mundo. É engraçado, as pessoas perguntam por que eu falo de futebol, se é uma música de amor. E aí? É mais ou menos isso. É esse o sentimento de um cara que vive em São Paulo, parece que ele está lutando contra todos.
